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17.11.15

Getúlio Vargas, nosso primeiro garoto propaganda (parte 1)

A Era Vargas é o primeiro momento da história brasileira onde temos a utilização de meios de comunicação massivos, principalmente o rádio e o cinema. Esses meios eram abastecidos de conteúdo pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (vulgo DIP). Nesse conteúdo, temos o garoto propaganda Getúlio Vargas nos vendendo uma nação brasileira jovem, orgulhosa, cristã, trabalhadora e triunfante. Abaixo, uma pequena seleção de vídeos do período estudado.

1)

Cerimônia de cremação das bandeiras estaduais, em 1935. Essa cerimônia acontece após a Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo. A Constitucionalista é um sintoma da relação de Vargas com as regionalidades brasileiras. Logo após tomar o poder, em 1930, Vargas substituiu todos os governadores por interventores de sua confiança. Essa medida foi uma manifestação prática de sua ideologia autoritária. O interventor estava submetido a uma hierarquia cuja liderança final era do presidente da nação. Em muitos estados brasileiros havia forte insatisfação com essas substituições de Vargas. A cremação das bandeiras visava reforçar, na ideologia varguista, a sobreposição da nação sobre as regionalidades.
2)

CineJornal do Departamento de Imprensa e Propaganda. Esse vídeo foi produzido no ano de 1940 pelo DIP. Aqui temos muitos elementos interessantes: 1) na era pré-televisão, o cinema cumpria inúmeras funções, inclusive a função de jornal. Essa peça foi produzida pelo DIP para ser vista nas inúmeras salas de cinema-teatro que existiam no Brasil. 2) Se vocês prestarem atenção nos elementos da narrativa, ouviremos o locutor dizer que "atendendo ao chamado do presidente Getúlio Vargas (...) as normalistas desfilam sob aplausos e manifestação de simpatia do público." Com esta fala o DIP quis propagar a ideia de uma adesão da população às demandas do governo e do governante. As jovens desfilam por que foram chamadas a obrigação (e obedeceram) e quando desfilam são exaltadas pela população transeunte. Aqui muitos elementos da ideologia varguista/estadonovista: exaltação à ordem, à obediência e o nacionalismo. No fim do vídeo, todos cantam o hino.

3)

Getúlio Vargas discursando no dia do trabalhador em 1943. Os discursos públicos eram importantes ferramentas de comunicação. Com o advento do rádio, os discursos ganharam amplitude. Na era Vargas, o rádio será largamente utilizado como ferramenta para difusão do ideário varguista e os discursos como forma. Nesse vídeo (curtíssimo), Vargas faz uma avaliação a respeito dos motivos que o levaram a tomar o poder (em 1930) e de como estes já haviam sido cumpridos: o trabalho brasileiro estava organizado, com garantias de direito e segundo princípios cristãos.  Com a formação do Estado Novo (1937), a propaganda governamental vendera a ideia de Vargas como protetor e tutelador dos pobres/trabalhador, que ficou conhecida no slogan "o pai dos pobres". Dito isto, conseguimos colocar mais alguns elementos na narrativa varguista sobre o que é ser brasileiro: humilde, trabalhador, cristão, não-regionalista.

4)

Último vídeo da primeira parte: Vargas discursando para os pracinhas da FEB que voltavam feridos da Segunda Guerra Mundial. Aqui temos um Vargas diante de suas contradições. Uma maneira de se analisar o período Vargas é observá-lo dentro de uma série de governos autoritários que surgiram no mundo. Autoproclamados "estados novos" tivemos dois: o governo de Vargas no Brasil e o governo de Salazar em Portugal. Na Espanha, Itália, Romênia, Grécia e Alemanha tínhamos governos abertamente autoritários, nacionalistas e militaristas. De certa maneira, a Segunda Guerra Mundial vai ser propagada como uma guerra entre governos autoritários-fascistas contra as democracias/mundo livre. Vargas durante o período entreguerras terá uma política externa de negociação com todas as partes envolvidas no conflito. Contudo, com alguns ataques alemães a navios brasileiros e uma forte incidência norte-americana sobre o país, Vargas levará o Brasil a lutar ao lado da democracia/mundo livre. Quando os pracinhas voltam da Guerra a problematização é feita: como pudemos lutar ao lado de democracias e por um mundo livre se dentro de nosso país vivemos sob uma ditadura? O exército, que fora muito importante para a ascensão e manutenção de Vargas no poder, paulatinamente tira seu apoio ao governo dando os tons finais do Estado Novo.

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